O conflito entre Estados Unidos e Irã completa aproximadamente 100 dias. Em 8 de abril, um cessar-fogo mediado pelo Paquistão interrompeu os combates diretos. Em 21 de abril, Trump o estendeu por tempo indeterminado. Mas, como a própria CNN reportou em 4 de junho, ambos os lados continuam emitindo sinais contraditórios sobre o status das negociações. O Estreito de Hormuz segue parcialmente bloqueado. A questão nuclear iraniana permanece sem solução. E o petróleo, que deveria ter encontrado alívio com o cessar-fogo, continua operando em zona de estresse.

O mercado parece ter encontrado um ponto de equilíbrio com o Brent oscilando entre US$ 96 e US$ 101 por barril nas últimas semanas. Mas esse equilíbrio tem um custo que não aparece no preço: a queima acelerada de reservas estratégicas e comerciais ao redor do mundo.

Os números que o preço não conta

Segundo dados da plataforma MacroAI, a Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA (Crude Ex-SPR) atingiu 357.119 mil barris na semana encerrada em 29 de maio, com queda de 35.581 mil barris em apenas quatro semanas e de 44.940 mil barris na comparação anual. O estoque total de crude (incluindo comercial) está em 433.712 mil barris, também em queda de 23.470 mil barris em quatro semanas. São os menores níveis da SPR desde agosto de 1983, como reportou a Newsweek em 2 de junho.

357.119
Crude Ex-SPR (k bbl)
-44.940
SPR YoY (k bbl)
1.573.470
Total Petróleo (k bbl)
-70.089
Total YoY (k bbl)

E não é só a SPR. A IEA, em seu relatório de maio de 2026, reportou que os estoques globais observados caíram 129 milhões de barris em março e outros 117 milhões em abril. São 246 milhões de barris retirados do sistema em apenas dois meses. Em Cushing, Oklahoma, o principal hub de precificação do WTI, os estoques caíram de 33 milhões para cerca de 24,5 milhões de barris, segundo dados da Kpler citados pela Fortune. Estão se aproximando do piso operacional de 20 milhões.

"Em Deus nós confiamos. Todos os outros, tragam dados."

W. Edwards Deming

Os dados neste caso são inequívocos. O JPMorgan projetou que os estoques comerciais do mundo desenvolvido poderiam atingir "níveis de estresse operacional" já no início de junho. A Capital Economics foi além: disse que os estoques em grandes economias podem chegar a "níveis criticamente baixos" até o final do mês.

Cessar-fogo sem solução

O cessar-fogo de 8 de abril foi um passo necessário, mas não suficiente. As negociações mediadas pelo Paquistão esbarram em impasses estruturais. O Irã exige o direito de continuar enriquecendo urânio, embora aceite negociar percentuais e quantidades. Os Estados Unidos querem o fim do programa balístico iraniano. Israel não participou formalmente das conversas e intensificou operações no Líbano, o que levou o Irã a suspender temporariamente as negociações em 1º de junho, segundo a CNN.

O Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, permanece com restrições de navegação. A IEA estima que a oferta global de petróleo deve recuar 3,9 milhões de barris por dia na média de 2026, para 102,2 milhões b/d. A capacidade de refino foi ainda mais afetada, com throughputs caindo 4,5 milhões b/d no segundo trimestre.

Atenção: Um cessar-fogo não é um acordo de paz. Enquanto o Estreito de Hormuz não retornar à plena operação e as questões nucleares não avançarem de forma concreta, o mercado precifica risco, não resolução.

O verão que pode mudar tudo

A temporada de viagens no hemisfério norte, conhecida como summer driving season, vai do Memorial Day (final de maio) ao Labor Day (início de setembro). Nesse período, o consumo de gasolina nos EUA historicamente atinge o pico anual. De acordo com a American Fuel & Petrochemical Manufacturers (AFPM), os americanos percorrem a maior quilometragem média anual justamente nesses meses.

Segundo a plataforma MacroAI, os futuros de gasolina (RBOB) acumulam alta de 67% nos últimos seis meses. A valorização superou inclusive a do próprio petróleo bruto no período, refletindo um aumento no crack spread, a margem de refino. Isso significa que, mesmo que o barril se estabilize, a gasolina pode continuar subindo por conta da pressão sazonal de demanda sobre uma capacidade de refino já comprimida.

Gráfico de futuros de gasolina RBOB — alta de 67% em 6 meses — MacroAI Plataforma
Futuros de gasolina (RBOB): +67% em 6 meses. Dados da plataforma MacroAI, módulo Commodities. Acesse em macroai.com.br/plataforma#macro

O ponto crucial é que o equilíbrio atual do Brent próximo de US$ 100 foi construído sobre a liberação massiva de reservas estratégicas. Executivos de grandes petroleiras como ExxonMobil e Chevron alertaram publicamente, no final de maio, que os preços podem disparar nas próximas semanas se os estoques continuarem em trajetória de queda. Quando se drenam reservas de emergência para sustentar preços correntes, o que sobra para quando a demanda sazonal de fato apertar?

Gráfico de estoques de petróleo dos EUA — MacroAI Plataforma
Estoques de petróleo dos EUA. Dados atualizados na plataforma MacroAI, módulo Commodities. Acesse em macroai.com.br/plataforma#macro

O módulo de Commodities da MacroAI plota estoques de petróleo, crack spreads e séries de energia em tempo real, com histórico e cores condicionais. Acompanhe em macroai.com.br/plataforma#macro

O que isso significa para o investidor

Petróleo caro é um imposto sobre a economia global. Pressiona inflação, corrói margens de empresas aéreas, transportadoras e indústrias intensivas em energia, e reduz o poder de compra do consumidor. Para o Brasil, que é exportador líquido de petróleo, o efeito é ambíguo. A Petrobras se beneficia de preços elevados, mas o repasse ao consumidor e a pressão sobre a inflação doméstica criam um contrapeso político e macroeconômico relevante.

O cenário exige monitoramento constante. Não apenas do preço spot, mas dos estoques, das margens de refino, da evolução das negociações geopolíticas e do comportamento sazonal da demanda. Como disse Nassim Taleb em "Antifrágil": o risco não está no que você vê, mas no que você não vê e não está medindo.

Os próximos 60 dias serão decisivos. Se o Estreito de Hormuz não retomar plena operação antes do pico do verão, o barril acima de US$ 100 pode deixar de ser teto e virar piso.

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