Kevin Warsh tomou posse como 17.º chairman do Federal Reserve em 22 de maio, após a confirmação mais apertada da história da instituição: 54 a 45 votos no Senado americano. Ele herda um cenário que nenhum antecessor gostaria de encontrar. O CPI de abril atingiu 3,8% ao ano, o maior nível em quase três anos, impulsionado por uma alta de 17,9% nos custos de energia. O payroll de maio surpreendeu com 172 mil vagas, o dobro do esperado. E o mercado de futuros já precifica, segundo o CME FedWatch, uma probabilidade de 68,4% de alta nos juros em dezembro.

Para ativos de risco, o cenário é desconfortável. Para o Bitcoin, pode ser especialmente relevante.

O hawk do balanço assume o comando

Warsh não é um desconhecido no Eccles Building. Ele serviu como governor do Fed entre 2006 e 2011, durante a crise financeira global. Mas seu gesto mais emblemático foi a saída: renunciou em protesto contra o QE2, o segundo programa de compra de ativos do banco central. Na visão dele, o Fed foi longe demais ao expandir o balanço.

Quinze anos depois, a posição não mudou. Segundo análise da Allianz Trade, Warsh combina uma visão relativamente dovish para juros com uma postura hawkish para o balanço patrimonial do Fed. Ele defende que o tamanho atual do SOMA (System Open Market Account), com US$ 4,3 trilhões em Treasuries e US$ 2,0 trilhões em MBS, é excessivo e limita a eficácia da política monetária. O argumento: reduzir o balanço liberaria espaço para juros mais baixos no futuro.

"Esperamos que Warsh reduza o balanço do Fed de forma mais rápida e agressiva do que Powell provavelmente faria, o que pode apertar as condições de liquidez e tornar a liquidez em dólar menos abundante."

Wachirawat Sontaranon, SCB FM, em análise para o Bangkok Post

Como resumiu Gilles Moec, economista-chefe do Grupo AXA, em relatório publicado pela Bloomberg: "São as visões de Warsh sobre o balanço do Fed e suas dúvidas profundas sobre o QE que podem enviar o maior sinal."

Os números que pressionam a estreia

3,8%
CPI ABR (A/A)
172k
PAYROLL MAI
68,4%
PROB. ALTA DEZ
3,50-3,75%
FED FUNDS ATUAL

O mercado de futuros já cruzou um limiar psicológico. Segundo a CNBC, a probabilidade de alta nos juros em dezembro saltou de 51% em meados de maio para 68,4% após o payroll de 6 de junho, conforme dados da IndexBox compilados do CME FedWatch. A probabilidade acumulada de alta até janeiro de 2027 supera 60%, e até março, ultrapassa 71%. Para a reunião do FOMC desta semana (16-17 de junho), o mercado atribui 99,4% de chance de manutenção. Mas o sinal para o segundo semestre mudou de direção.

Warsh chega, portanto, num momento em que o mercado não espera mais cortes. Espera aperto. E ele, por convicção, quer enxugar o balanço. As duas forças apontam na mesma direção: menos liquidez.

O que isso significa para o Bitcoin

A correlação entre Bitcoin e liquidez global não é teoria. É dado. Segundo pesquisa da Keyrock publicada em maio de 2026, a emissão de T-bills do Tesouro americano apresenta a maior correlação antecedente com o Bitcoin (r = +0,80, com aproximadamente 8 meses de antecedência), seguida por drenagens de facilidades do Fed (r = +0,54). Quando a liquidez líquida expande, o Bitcoin tende a subir. Quando contrai, tende a sofrer.

Comparação entre Net Liquidez US e Bitcoin
Comparação entre Net Liquidez dos EUA e Bitcoin. Dados da plataforma MacroAI, módulo Macro. Acesse em macroai.com.br/plataforma#macro

O gráfico acima, disponível na plataforma MacroAI, compara a net liquidez americana com o preço do Bitcoin. A sobreposição visual não é coincidência. O Bitcoin se comporta, em boa medida, como um termômetro de liquidez global. E se Warsh cumprir a promessa de apertar o balanço do Fed enquanto o mercado precifica alta de juros, a equação para o Bitcoin fica mais difícil.

Atenção: um balanço do Fed menor significa menos reservas no sistema, menor liquidez em dólar e condições financeiras mais apertadas. Para ativos que prosperam em ambientes de liquidez abundante, como o Bitcoin, é um vento contrário estrutural.

Isso não significa que o Bitcoin vai cair amanhã. Significa que o investidor que monitora apenas preço e volume está perdendo metade do jogo. A variável que mais importa para cripto no médio prazo é liquidez. E ela está sob pressão de dois lados: juros potencialmente mais altos e um balanço potencialmente menor.

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