Tem semana em que os bancos centrais falam baixo. Esta não foi uma delas.
Em junho de 2026, dois dos principais bancos centrais do mundo deram o mesmo recado com sotaques opostos. O Federal Reserve manteve o juro parado e, ainda assim, endureceu. O Banco do Japão subiu o juro ao maior patamar em três décadas com o próprio governador internado. Nenhum dos dois piscou.
Começo pelo Fed, porque foi a estreia de Kevin Warsh na cadeira que Jerome Powell ocupou por quase oito anos. A decisão de manter a faixa em 3,50% a 3,75% saiu por unanimidade, 12 a 0. O recado, porém, estava no resto. O comunicado encolheu de 341 para 130 palavras e abandonou a linguagem que sugeria cortes à frente. E Warsh fez algo inédito. Recusou-se a colocar o próprio ponto no dot plot, o gráfico em que cada membro projeta o juro futuro, e virou o primeiro presidente a se abster. Tudo isso com a inflação ao consumidor rodando a 4,2% em maio, a maior leitura desde 2023, pressionada pelo choque de energia do conflito no Oriente Médio.
No Japão, a firmeza veio sem o rosto que costuma representá-la. O Banco do Japão elevou o juro de 0,75% para 1,00%, o maior nível desde 1995, por sete votos a um. Kazuo Ueda, o governador, nem estava na sala. Internado por uma infecção, deixou a decisão para o vice e os demais membros presentes. O comitê apertou assim mesmo.
Dois movimentos, uma direção. A inflação voltou a ser o assunto que organiza tudo.
A conversa
Para me ajudar a entender esse cenário, e o que costuma escapar na manchete, chamei alguém que operou por dentro justamente os três tabuleiros dessa história. Conheço o David Wolf desde os tempos de pandemia e virei fã do jeito dele de enxergar mercado.
O David é americano e mora no Brasil há 35 anos. Casado com brasileira, gosta de dizer que escolheu ficar, com todos os problemas que o país tem, enquanto muita gente pensa em sair. A trajetória dele, curiosamente, começa longe de qualquer mesa de operação. Ele estudou filosofia numa faculdade de Massachusetts antes de ir para Wall Street, onde entrou como formador de mercado em renda fixa americana, operando Treasuries e títulos lastreados em hipotecas. Foram quatro anos em Nova York, quatro em Tóquio e dois em Londres.
Em 1995 ele veio para São Paulo, a convite da Cargill, e montou aqui uma carteira relevante de papel local indexado ao Dólar, numa era em que o juro brasileiro rodava a mais de 10% hedgeado em dólares. Foi assim que aprendeu a operar o nosso mercado com todas as suas manhas. Depois passou dois anos como tesoureiro do Unibanco e foi para um hedge fund em Londres tocado por um brasileiro, que saiu de 50 milhões para 800 milhões de dólares sob gestão em dois anos. Mais tarde, trocou o mercado pela economia real, atrás de uma experiência diferente.
Quem entende dos dois lados costuma ter as melhores histórias. O David tem. Vamos a elas.
A entrevista
Warsh assumiu com poucas palavras e a promessa de uma postura firme no comando do Fed. Ele promete ser diferente dos últimos presidentes. O mercado já incorporou essa nova postura?
Achei a escolha de Kevin Warsh excelente. Uma pena que o Trump não a tenha anunciado antes, porque o mercado está recebendo o nome de forma muito positiva.
Na primeira coletiva de imprensa, logo após a primeira reunião do Fed, há cerca de dez dias, Warsh se posicionou como um inflation fighter. Disse que quer estar ao lado dos demais membros do comitê, lutando pela estabilidade de preços. Durante boa parte do ano passado, o mercado temia que o Trump colocasse um fantoche na cadeira, alguém disposto a fazer o que fosse preciso para derrubar o juro, independentemente da pressão inflacionária. Esse medo não se confirmou. É preciso reconhecer, o Trump fez uma boa escolha.
A prova veio na curva. Nos dias seguintes à reunião, houve uma mexida no yield curve que funcionou como um selo de aprovação. As taxas curtas subiram com força, algo como vinte pontos-base, e a parte longa, os vencimentos de dez e trinta anos, fechou taxa. Esse twist diz uma coisa clara. No curto prazo, o banco central mantém o juro alto. No longo prazo, tem sucesso, com as taxas longas sinalizando que a inflação não será um problema tão grande.
Você comentou comigo que o Warsh vendeu ao Trump a tese de que a inteligência artificial seria deflacionária. Só que, hoje, ela parece estar fazendo o contrário. Isso amarra as mãos dele para cortar juro no curto prazo?
Esse é o ponto delicado. Para conseguir o cargo, Warsh argumentou ao Trump que a inteligência artificial será deflacionária, que o ganho de produtividade tende a derrubar preços ao longo do tempo. O problema é que, hoje, ela está fazendo o contrário. Veja a Apple, que subiu na semana passada por causa do encarecimento dos chips de memória que utiliza, e os aumentos não foram pequenos. A economia americana está dependente do capex de IA. Por algumas contas, perto da metade do crescimento do PIB vem desses gastos das grandes empresas. Então será difícil medir qualquer deflação vinda da IA no curto prazo. E será igualmente difícil para Warsh justificar um corte de juro agora com base nessa visão, por mais que ele acredite que, lá na frente, a IA seja um fator poderoso de estabilização e queda de preços.
Você espera novidades das forças-tarefa que Warsh encomendou em diferentes frentes?
Warsh chegou organizando o trabalho e estabeleceu cinco forças-tarefa. Não vou entrar no detalhe de cada uma, mas a que achei mais interessante trata do forward guidance.
Para quem não conhece o termo, forward guidance é a forma como o banco central comunica ao mercado o viés do comitê sobre o juro futuro. Temos isso no Brasil também. Imagine um ciclo de baixa. O banco central corta vinte e cinco pontos-base e sinaliza que aquilo faz parte de um movimento maior. O mercado então já precifica uma trajetória de juros, e os agentes econômicos passam a planejar, porque têm mais informação.
Essa prática foi uma grande mudança em relação aos tempos de Alan Greenspan, presidente do Fed nos anos 90. Greenspan era um gênio em comunicar sem comunicar. Usava palavras, frases e uma terminologia tão difícil que era quase impossível alguém entender o que ele dizia. E fazia isso de propósito. Achava melhor que o mercado decidisse como precificar as taxas futuras com base nos fatos, nos indicadores, na trajetória de inflação e de crescimento. Isso mudou em grande parte na crise financeira de 2008. De uma forma ou de outra, estamos voltando no tempo, para os anos em que me formei na carreira.
Pessoalmente, acho excelente. Tínhamos um Fed que complicava demais. Quando os fatos mudam, fica difícil para o Fed mudar de opinião. Foi o que aconteceu quando ele insistiu que a inflação era transitória em 2021 e 2022, demora que depois exigiu subir o juro com força. Reduzir o forward guidance dá mais flexibilidade. E não acho que isso torne a taxa mais volátil. Os mercados sabem muito bem interpretar a informação, e o resultado pode ser até menos volatilidade. Se o resto do Fed seguir o exemplo de Warsh e falar menos, e não há garantia de que os outros membros vão ficar quietos como ele gostaria, você terá menos vozes dizendo uma coisa e outra. Toda semana havia quatro diretores do Fed falando, o que traz confusão. Por isso sou muito a favor de diminuir o forward guidance.
Acompanhe os mesmos dados que pautam esta conversa, em um só lugar.
Compare juros, inflação e diversas outras séries macro na MacroAIWarsh é um crítico do tamanho do balanço do Fed. Você acha que ele consegue implementar uma redução depois de anos de mercado anestesiado com essa boia de salvação?
É um bom tema pensar em como Warsh pode gerenciar o balanço do Fed de outra forma. Como você bem disse, Gabriel, o mercado ficou viciado, anestesiado, foi a sua palavra, e é excelente, com a boia de salvação de um banco central sempre pronto a comprar títulos no momento da crise para o juro não explodir. Já se comprou de tudo. Treasuries, mortgage-backed securities, títulos corporativos, até ETFs, como o Japão fez.
Warsh sempre criticou isso. Ele acha que o juro deveria ser muito mais uma função da taxa overnight, que o Fed define, e muito menos do tamanho do balanço e da atuação do Fed no mercado aberto, comprando e manipulando as taxas. Vai conseguir? Ainda não sei dizer.
Mas há um fato importante que ele não enfatizou tanto na coletiva e que considero central. Nos anos 50, na época de Truman, o Tesouro e o Fed trabalhavam muito mais juntos do que hoje. Warsh já explicou que gostaria de resgatar parte disso. E não tenho a menor dúvida de que ele tem uma relação muito boa com o secretário do Tesouro, Scott Bessent. A maneira de, entre aspas, controlar o juro passaria por mexer no perfil da dívida americana. O Bessent decide quais papéis e quais vencimentos emitir. Pode reduzir o papel longo e aumentar o curto, ou fazer o contrário. Acho que o caminho é esse, uma parceria com o Tesouro. Vamos ver um alinhamento maior entre Tesouro e Fed, e talvez seja uma reforma com uma dimensão difícil de medir agora.
Outro foco do mercado está nos títulos e na moeda japonesa. Sendo o Japão um player importante do carry trade global, o que o investidor precisa colocar no radar vindo de lá?
Sobre o Japão, morei lá quatro anos e posso testemunhar. Você pode estudar o Japão e os japoneses a vida inteira e ainda será difícil entender a cultura e a forma de pensar. Quando falamos de como eles vão gerenciar a subida gradual do juro, é uma situação delicada.
Há uma nova primeira-ministra, a primeira mulher no cargo, e ela é muito expansionista no lado fiscal. Gostaria que o Banco do Japão, o BOJ, subisse o juro mais devagar, porque quer estimular a economia. Por ora, ela e o banco central parecem trabalhar bem juntos. O mercado ficou um pouco preocupado com isso no começo, quando ela foi eleita, alguns meses atrás.
Olhando para a frente, o carry trade é algo muito difícil de medir. Tem muita gente que fala dele como se fosse binário. Ou o carry trade está rolando, ou está se desfazendo. Não é assim. Só para o leitor entender, carry trade é quando você toma dinheiro emprestado em uma moeda de juro baixo, seria o caso do Japão, e investe em uma moeda de juro mais alto, no caso os Estados Unidos.
O Banco do Japão não está gostando do iene fraco e entrou recentemente no mercado de câmbio, vendendo dólares para fortalecer a moeda. No nível de cento e sessenta, você viu essa atuação. Só que, com o dólar ganhando força nas últimas semanas, resultado do que falamos antes, de um Warsh mais hawkish dando a entender que poderia subir o juro, e da percepção de que o Trump vai deixar o Warsh trabalhar, houve aquela alta nos juros curtos americanos que mencionei. Isso gerou um interesse maior pelo dólar. O dólar ficou mais forte globalmente, inclusive aqui no Brasil.
Quanto o mercado absorve desse diferencial de juros, é difícil eu ter muita opinião. Mas não tenho muito medo de um grande desmonte do carry trade. Acho o mercado extremamente eficiente no fato de o Banco do Japão poder intervir sem causar tanta volatilidade no câmbio. Pelo menos não vejo um grande perigo vindo do carry trade entre Japão e Estados Unidos.
Onde ler mais o David
Saio dessa conversa com a sensação de sempre depois de falar com o David, a de que mercado fica mais simples quando alguém que viu de tudo te explica com calma. A boa notícia é que dá para acompanhar ele toda semana. Pedi que deixasse a palavra final por conta própria.
"Eu escrevo uma newsletter semanal no Substack, às vezes com mais de uma edição por semana. Tento explicar o que está acontecendo no mercado, e o que pode acontecer, de um jeito mais leve, usando músicas da cultura popular e histórias da filosofia. A ideia é pegar assuntos muito sérios, às vezes até pesados, e tratá-los de uma forma mais leve."
"A assinatura é gratuita. Costumo dizer que o melhor custo-benefício do mercado financeiro é assinar a minha newsletter, porque o custo é zero. Você tem tudo a ganhar e nada a perder. O nome brinca com O Lobo de Wall Street. Não é uma cópia do original, mas meu sobrenome é Wolf, então posso usar. Espero que vocês assinem, gostem e mandem comentários. E que a gente continue essa parceria com a MacroAI."
