Na segunda-feira, 26 de outubro, o mercado brasileiro acordou diante de um resultado que boa parte dos investidores não tinha no preço. Com a reeleição de Lula, o Ibovespa chegou a recuar mais de 17% na mínima do dia e fechou em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos, em um pregão com circuit breaker. O dólar saltou 8,21%, a R$ 5,40, a maior alta diária desde janeiro de 1999.
Segundo a imprensa financeira, parte relevante do mercado estava posicionada para a vitória de Flávio Bolsonaro, e o ajuste dessas posições amplificou o movimento. Nos dias seguintes, bolsa e dólar deram sinais de recuperação, mas a pergunta que ficou é de outra natureza: quem vendeu, quem comprou e o que isso significa para quem investe daqui para frente.
Quem conversa com a gente
Para ler esse cenário, converso com o amigo e lenda do mercado financeiro Rodrigo Campos. Administrador pela FGV e MBA pela Columbia University (turma de 95), ele soma mais de 30 anos de mercado, com passagens pelo Credit Suisse First Boston em Nova York, pela tesouraria do JPMorgan, pelo HSBC e pela GP Investments, onde foi partner. Foi também sócio de duas das gestoras mais respeitadas do país, a Constellation e a Armor Capital. Hoje, é uma das vozes de maior destaque do fintwit brasileiro.
A conversa
Gabriel Rech
Rodrigo, nesta semana os três mercados, bolsa, câmbio e juros, passaram por um forte reajuste após as eleições. Diante desse cenário, tenho três perguntas. A primeira: como o investidor estrangeiro olha o Brasil em momentos como este? Pela sua experiência em gestão internacional, o movimento dessa semana pode ter sido, em alguma parte, exagerado aos olhos dele?
Rodrigo Campos
Gabriel, um prazer participar desse macrotalks! Te conheço e admiro seu trabalho há anos. Antes de responder, é importante ressaltar que existem dois tipos de investidor estrangeiro.
O primeiro é o que a gente chama de "real money": endowments de universidades como Harvard, Stanford e Yale, com cerca de 70 bi, fundos de pensão de Israel e do Canadá, fundos soberanos dos países árabes e o maior de todos, o Norges, da Noruega, com 2 tri de ativos.
O segundo é o chamado "smart money", notadamente hedge funds como Point72, BlueCrest e RenTec, muito mais afeitos a movimentos de curto prazo no mercado.
O real money está preocupado com alocação por diversificação. Gosta do case de um país com petróleo, energia limpa e provedor de alimentos para o mundo. O case é bem mais profundo do que eleição de A ou de B, e o horizonte de alocação é de muitos anos. Quem surfa a onda de volatilidade, e muitas vezes a amplifica, é o smart money.
Gabriel Rech
Daqui para frente, muda alguma coisa na forma como o estrangeiro enxerga o Brasil? O que ele vai observar para decidir se volta ou se continua de fora?
Rodrigo Campos
Esse movimento abrupto do smart money, em cima de price action e news flow, move mercado. E isso causa resgates nos fundos locais. Estão de olho no detalhe do news flow nesse momento.
Gabriel Rech
Como o investidor pessoa física pode transformar essa volatilidade e esse desânimo com o mercado em oportunidade?
Rodrigo Campos
Resgate em fundo local causa pressão de venda de A a Z, principalmente nas small caps. O gestor não tem o que fazer... vende para fazer caixa. E é aí que moram as grandes oportunidades: jogam a água da banheira com o bebê dentro!
A pessoa física bem assessorada tem chance raríssima de ir montando um portfólio!
"Jogam a água da banheira com o bebê dentro."
